Segundo Jacques Lacarrière, Les hommes ivres de Dieu, a Vida de Antão, único texto contemporâneo do santo, foi escrita em grego por santo Atanásio, bispo de Alexandria, no curso de uma de suas estadias prolongadas (355-356), que teve que fazer nos desertos do Egito, no momento da crise ariana. Ora este célebre texto, que fez sonhar todo Oriente e o Ocidente e desempenhou um papel tão determinante na extensão do monaquismo, sempre foi considerado, até o século XIX, como uma biografia de Antão. Era então seu título original: Vida e Conduta de nosso pai Antão por Atanásio, bispo de Alexandria. Até o dia em que certos historiadores, entre os quais Reitzenstein, demonstraram que em realidade a Vida de Antão não pertence ao gênero da biografia mas àquele da aretologia (do grego aretos: virtude e logos: discurso, o que se poderia traduzir por discurso edificante), gênero muito em voga desde muitos séculos na Antiguidade pagã e que respondia a regras de composição literária precisas. Não tinha por meta fornecer um testemunho histórico e objetivo sobre a vida de um homem mas de apresentar ao leitor um quadro edificante de vida ideal. A aretologia era em suma a expressão literária de um modelo ideal de comportamento e este gênero foi utilizado tanto para as Vidas dos sábios pagãos quanto para aquelas dos santos cristãos. Os principais procedimentos literários da Vida de Antão se encontram, idênticos, nas Vidas dos sábios dos séculos anteriores — a ponto de que certos exegetas aí viram uma imitação pura e simples das vidas pagãs: Vida de Apolônio de Tiana escrita no meio do século III por Filastro, Vida de Pitágoras por Jâmblico (escrita no início do século IV) e a Vida dos Sofistas escrita por Eunápio por volta da mesma época. Nestas Vidas, os sábios, como mais tarde os santos, ordenam com efeito os elementos, afastam as desgraças, domesticam as bestas selvagens, operam curas milagrosas, exorcisam os possuídos. O que permite situar já em seu verdadeiro contexto todos estes milagres, estas diabolices e estas maravilhas que formigam a Vida de Antão. Não têm sentido senão em função da meta visada pelo autor: escrita para edificar, não para descrever, concebida como um retrato exaltante da vida no deserto e não uma reportagem minuciosa dos fatos e gestos do santo, a Vida de Antão não poderia deixar de passar das convenções literárias indispensáveis a toda Vida edificante: milagres estupeficantes, grandes discursos retóricos sobre a virtude e a sabedoria, recurso ao maravilhoso e ao sobrenatural, assaltos dos demônios. Em suma, é o "porque" da Vida de Antão que explica o "como", não o inverso. Todo este arsenal de milagres e tentações, de conversações com os anjos ou poderes exaltantes nada tem de cristão. Para o público da época, pagão ou cristão, nenhuma Vida de sábio ou de santo não podia ter virtude edificante se não tivesse então um poder "estupeficante", se não obedecesse às leis do romance aretológico.
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